Prosa Pantaneira

A gente sabe que existem políticas públicas destinadas para a comunidade quilombola, só que pela falta de regularização fundiária estamos perdendo esses benefícios. Goncalina, liderança do Quilombo Mata Cavalo

2 de outubro de 2007

DONA TEREZA: MULHER NEGRA NA LUTA

 

Por: João Guató *

O conflito de terras em Mata Cavalo na localidade de Nossa Senhora do Livramento (que fica a 50 km da capital de Mato Grosso, Cuiabá), já se estende por mais de 30 anos. A omissão do poder público do Estado vem de longe e a situação dos quilombolas do Mata Cavalo é grave, já houve despejos, queima de barracos, pessoas presas e até conflitos armados.

Há quem acredita que a área é muito rica, em ouro, e isto aumenta a cobiça de todo tipo de gente gananciosa, aventureiros brancos, negros e roxos entre outros tipos étnicos.

Os negros, descendentes legítimos de escravos, além do direito de usucapião (caso as terras pertencessem, realmente, a sesmaria de brancos), são vistos, também, como verdadeiros posseiros e proprietários, ainda que se tratassem de terras devolutas, ou seja, pertencentes ao Estado".

Com 495 famílias, a comunidade vive hoje numa área reduzida impedindo o cultivo de roça de subsistência que não lhe garante a pão de cada dia das famílias. Mesmo assim, as mulheres e homens na luta pela terra são iguais em direito, alguns homens, segundo Dona Tereza, na hora do vamos ver como é fica…falham.

Enquanto fazendeiros usam os artifícios do poder para justificar suas invasões, despejos, armas, autoritarismo, queima de casas e de plantações, o próprio Estado age com a omissão. O governo não é a solução do problema, o governo é o problema.

Nesta entrevista inclusiva, Dona Tereza da Conceição, Presidente da Associação do Mato Cavalo, fala dos problemas que os quilombolas vem enfrentando na luta pela terra. Veja a entrevista na integra de João Guató da Rede Mato-Grossense de Educação Ambiental (REMTEA).

 

Guató – Dona Tereza, há quanto tempo à senhora vem lutando pela as terras do Quilombo Mata Cavalo?

D. Tereza – Eu nasci e fui criada nessas terras do Quilombo Mata-Cavalo. Estou com 7O anos, e meu pai com 102 anos (Antônio Mulato), também é filho do Quilombo. Então veja! Com todo esse tempo em cima da terra, nunca saímos de dentro do Quilombo.

Guató – Como está a luta hoje de posse pelas terras em litígio?

D. Tereza – Pelo o que estou vendo, já não tem o quê se fazer. Tudo que estava ao nosso alcance foi feito. Agora esta nas mãos dos responsáveis pelo Incra em Mato Grosso. Um documento foi elaborado por nos e entregue ao Presidente Lula. Agora estamos aguardando uma reunião que até o momento não foi marcada, apenas boatos. Acreditamos que desta vez será resolvido. Vamos ver…

Guató – O quê vocês esperam com esse documento entregue ao Presidente de Lula em passagem por Cuiabá?

D. Tereza – Nós esperamos com isto o titulo da terra. Queremos isto do Presidente Lula. No documento reivindicamos apoio para recebemos o título da terra, para que possamos trabalhar e expandir as nossas ações na comunidade. Temos 14 famílias com roças, criação de galinha e porco que foram despejados de suas terras dias atrás. Depois disto os fazendeiros colocaram gado nas terras. Eles acabam com as plantações. Destrói tudo que encontram pela frente.O problema é que essas famílias estavam produzindo e foram forçados pelos fazendeiros a abandonar a terra com ameaças. Até quando vamos vivem em nossas próprias terras sendo tratados desta forma?

Guató – No Governo Dante de Oliveira foi feita a Cadeia Dominial das terras do Mato Cavalo, ficou comprovado que é território de quilombola, aquilo não valeu?

D Tereza – Valeu sim! Mas o pessoal do Incra sumiu com os papéis. Agora disseram para nos que teríamos que fazer novamente a cadeia dominial. Lá no Incra tem muita gente boa, mas tem algumas pessoas que já até nos jogaram para fora do prédio. Aquele Clovis e o Leonel têm vezes que nem recebemos nós. Um dia mandou o segurança tirar nós lá de dentro.

 

Guató – Qual é a maior dificuldade que a senhora enfrenta nessa luta?

D. Tereza – O maior problema é a falta de empenho dos governantes, principalmente do Incra, que não se empenha na resolução dos problemas. Outro problema para nós é o Carlos Maciel, do cartório de registro de imóvel de Várzea Grande, que fez uma associação dos fazendeiros para contrapor a nossa luta. Ele tem dinheiro e nós não temos, então é ele mais quem não deixa a conversa a avançar.

Guató – Esta associação que a senhora preside é a associação mãe. isto quer dizer que existem outras associações, isto não enfraquece a luta?

D. Tereza – Enfraquece sim, mas quiseram assim. Por que antes da gente receber o titulo definitivo, já havia seis associações, mas eu sou a, mas velha por aqui registrada como presidente. Depois foi o pessoal do Mutuca. Cada associação tem o seu domínio territorial de Trabalho. Quiseram fazer assim, fizemos. Mas já passamos por muitas dificuldades com a nossa associação, mas sempre persistimos com a luta pela terra. As outras tiveram que mudar daqui, por causa das pressões…Somos seis famílias que nunca deixou o quilombo. Já passamos por serias dificuldades, mas sempre moramos aqui.

Guató – Hoje nesta comunidade há indícios de muitos barracos queimados, o quê a senhora atribui?

D. Tereza – Tem lugar que são os fazendeiros que mandam colocar fogo. Tem alguns lugares que a palha esta muito velha e qualquer faísca de fogo já incendeia. A minha filha na semana passada perdeu o barraco com todos móveis que tinha dentro. Estava fora, quando chegaram na casa estava tudo queimado. Ninguém sabe o que aconteceu…

Guató – Como à senhora encara a luta da mulher negra pela terra no Quilombo do Mata Cavalo?

D. Tereza – As mulheres aqui são de fibra, nascemos e fomos criadas aqui. Mesmo com as ameaças, estamos na luta e em pé para que tudo seja resolvido. Não temos medo. Temos esperança que tudo será resolvido. Com fé em Deus!

Guató – Como é a participação dos homens na luta pela terra?

D. Tereza – Aqui tem homem de força e de luta na nossa batalha. Temos muito homem que estão mais envolvidos com suas plantações. Todos ajudam de alguma forma. Mas também tem aquele que não encaram a luta de frente.

Guató – Qual a mensagem que a senhora deixa para as mulheres negras do Brasil?

D. Tereza – Que viva a mulher brasileira, que possam enfrentar as suas lutas, onde Deus possa dar força principalmente para as minhas amigas aqui do quilombo.

Guató –Qual é o seu grande desejo na luta por essas terras?

D. Tereza – Que todos que participaram dessa luta, possam estar assentados e com o titulo definitivo em suas mãos. Para que suas famílias possam criar e viver em paz no seu pedaço de terra.

* João Guató – É jornalista em Mato Grosso e Facilitador da Rede Mato-Grossense de Educação Ambiental.

criado por joaoguato    16:40 — Arquivado em: Sem categoria
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