17 de fevereiro de 2008
UM OLHAR MINEIRO COM FRAGMENTOS PANTANEIRO

Ela é Carla Ladeira Pimentel. Com a mineirice no sotaque e um pé fincado em Mato Grosso, foi pará na Europa em busca de novos conhecimentos. Para os amigos mais íntimos ela é simplesmente “Carlinha”. Mineira de Belo Horizonte, jornalista comprometida com as causas sociais, não tem medo de enfrentar novos desafios. Ambientalista por opção e ecologista de formação é também artista plástica com sutilezas poéticas no olhar.
Em sua passagem por Mato Grosso foi editora do caderno cidade do jornal A GAZETA, principal jornal da capital de Mato Grosso, Cuiabá. Andarilha do tipo mochileira, encontra-se vivendo na Europa, especificamente em Coimbra, Portugal, onde se encontra cursando doutorado sob a orientação de Boaventura Santos.
O mestrado fez quanto esteve em Mato Grosso na Universidade Federal (UFMT), na linha de pesquisa educação e meio ambiente, sob a orientação da surrealista, Michèle Sato.
Especialista em educação ambiental também pela UFMT, participou do projeto de educação ambiental para Amazônia (EDAMAZ), chegando receber prêmio do parlamento amazônico pelos excelentes serviços prestados como pesquisadora do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental (GPEA/UFMT).
Nesta entrevista exclusiva A Jão Guató para a Prosa Pantaneira, agora como dona “Carla Ladeira Pimentel Águas”, fala-nos dos novos desafios e revela o segredo para viver um grande amor.
Guató-O que levou você a “chutar o pau da barraca” e deixar o Brasil?
Carlinha - Eu sempre fui bastante impetuosa, e isso trouxe coisas boas e ruins para a minha vida. Só agora, já pós-Balzaquiana, é que eu começo a colocar um tempero mais racional e calmo às minhas escolhas. E a vinda para Portugal foi um pouco isso: eu comecei a querer outra coisa, mudar de ares, mudar de dia-a-dia. Estava no jornalismo, e especialmente no jornalismo diário, há muitos anos, e sentia falta de outros tipos de experiência. A princípio, nem passava pela minha cabeça sair do Brasil.
Guató - Qual a sua percepção hoje do país morando na Europa?
Carlinha - É difícil responder a esta pergunta. Não posso falar por todos os brasileiros que estão fora do país, mas pelo menos para mim é difícil estar tão longe sem perder o foco. Ou seja: recebo informações sobre o Brasil filtradas pela grande mídia ou, no máximo, através de conversas esparsas com os amigos e a família. Mas uma coisa que ficou clara logo no início foi que é impossível resumir o Brasil
Guató - Em Mato Grosso você navegou pelos campos híbridos da educação ambiental com a pop star da EA brasileira Michèle Sato; o que foi possível aprender e ensinar nesta relação?
Carlinha - Vixe, mais uma pergunta difícil. Quanto ao “ensinar”, a gente nem sempre sabe direito o que e como ensina né? Mas o “aprender” é mais fácil de explicar. A Michèle é de uma generosidade incrível. Ela se doa mesmo, sem meias-palavras. E tem o maior prazer em abrir espaço para quem está começando e tem vontade de trabalhar. Esta postura carinhosa dela fez com que eu conseguisse entender melhor a própria Educação Ambiental. Porque não é só uma questão de teoria, é uma questão de carinho com as pessoas, de cuidado, de atenção, de solidariedade, de rompimento com a lógica economicista, de opção de vida.
Guató - O que você tem usado desta “aprendizagem ambiental pantaneira” na relação pedagógica com o velho mundo?
Carlinha - Bem, nós carregamos nas malas o que somos, né? O meio nos transforma, mas eu nunca vou deixar de ser mineira (o sotaque continua o mesmo), nem vou deixar de ter um pé em Mato Grosso. Mato Grosso foi um divisor de águas. Foi lá que se formou a minha visão Política, no sentido macro. Foi lá, no pantanal, na Amazônia, numa aldeia indígena ou na periferia de Cuiabá, que eu fiz o meu “Descobrimento do Brasil” particular. Isso foi decisivo. Aqui em Portugal, passei muito tempo sem trabalhar diretamente com a EA. Mas, depois de um “longo e tenebroso inverno”, começo a retomar o fio da meada.
Guató - Como jornalista e educadora ambiental, qual a sua opinião sobre os meios de comunicação brasileiros quando tratam dos problemas ambientais?
Carlinha - Para mim, é difícil fazer uma avaliação bem fundamentada, porque estou longe e não tenho acesso a grande parte do que é publicado pela mídia. Tenho acesso ao que está disponível na internet, o que não é muita coisa. Por isso, meu olhar fica limitado. Mas posso dizer, por exemplo, que a cobertura de jornais como “O Globo” me parece insuficiente. Muitas vezes também as coisas surgem desconectadas, sem pano de fundo, e aí é preciso que estrelas pop façam shows em vários pontos do mundo para que se comece a ouvir falar em aquecimento global. Porém, isso não difere muito do que se pode encontrar na imprensa daqui, quando normalmente meio ambiente só se torna notícia se o país inteiro começa a arder em chamas.
Guató - Como os nossos colonizadores portugueses tratam a EA no velho mundo?
Carlinha - Dentro desses limites, acho que o Brasil tem um discurso e uma investigação muito mais avançados. A Educação Ambiental aqui tem muito pela frente, enquanto teoria. Tanto que muitos dos que trabalham com o tema vão “beber nas fontes” brasileiras. Não posso generalizar, mas ainda há muito daquela confusão entre Educação Ambiental e natureza intocada, ou ela é resumida a dicas (de como economizar energia, por exemplo), mas com pouca discussão de fundo. Mas há que se observar que algumas coisas funcionam melhor, como a recolha seletiva de lixo, que é mais generalizada e uniforme aqui do que no Brasil.
Guató - Estamos sabendo que você está ingressando num programa de doutorado em Coimbra. Qual será sua proposta de tese?
Carlinha - Minha tese será sobre Mata Cavalo, aquela comunidade quilombola existente em Nossa Senhora do Livramento, Mato Grosso, e que até hoje trava duras batalhas para ter definitivamente o direito sobre as terras que lhe foram doadas em 1883. O tema me entusiasma muito e a minha maior expectativa é de que efetivamente sirva para alimentar o debate sobre o pós-colonialismo e, principalmente, seja um passo a mais rumo à solução concreta, real, do problema. Mesmo sabendo da limitação, que no meu caso é ainda mais grave por estar tão longe, quero entender e estar presente o máximo que me for possível, através deste doutorado que será o mote dos meus próximos quatro anos de vida. Acho uma oportunidade e tanta, especialmente porque o curso nasce das atividades do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, que, por sua vez, é encabeçado por Boaventura Sousa Santos, um mestre no debate da globalização e da resistência anti-hegemônica.
Guató - Agora como “dona Carla Pimentel”, qual a sua dica para viver um grande amor?
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Carlinha - É difícil dar dicas e fórmulas, mas é possível dizer que o amor é uma coisa que te aquece sem te queimar. Suplementa, não complementa. Reforça aquilo que a gente já é. Eu e o Nuno somos, para começar, amigos. Muito mesmo. E ele me dá o equilíbrio que a minha natural impetuosidade não me deixava ter. Sem paranóias, sem jogos, de uma simplicidade e de uma proximidade que eu até então desconhecia nas relações amorosas.
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