Prosa Pantaneira

A gente sabe que existem políticas públicas destinadas para a comunidade quilombola, só que pela falta de regularização fundiária estamos perdendo esses benefícios. Goncalina, liderança do Quilombo Mata Cavalo

5 de julho de 2008

MULHERES DE RAÇA DO MATA CAVALO

Nesta entrevista inclusiva, a mais nova liderança do Quilombo de Mata Cavalo, Gonçalina Eva, fala da luta das mulheres do Mata Cavalo pela demarcação do território quilombola.Veja a entrevista na integra de Jão Guató da Rede Mato-Grossense de Educação Ambiental (REMTEA).

Como está à situação da demarcação do território quilombola em Mata Cavalo?

De acordo com o decreto de demarcação dos territórios quilombolas, estamos em fase de desapropriação, porque já foram feitas as notificações e passou o prazo que os fazendeiros tinham para contestar o processo demarcatório. Segundo o que vimos no Incra, mais ou menos 15 fazendeiros contestaram o processo de demarcação do território como quilombola. Então estamos aguardando a desapropriação, que é a etapa final para desapropriação.

Quantos fazendeiros reivindicam a posse da terra em Mata cavalo?

Entre os pequenos fazendeiros, sem terras, poceiros e os grandes proprietários, têm um total de aproximadamente 120 pessoas.

Na gestão do Governo Dante de Oliveira foi realizado a cadeia dominial desta área, porque o Incra tem que fazer tudo novamente?

Na realidade quando o Intermat (Instituto de Terras de Mato Grosso) realizou esse trabalho, ele fez apenas de uma área de onze mil hectares de terras, abrangendo três a quatro fazendas desta região. No entanto, de acordo com o decreto de reconhecimento do território Quilombola, é a comunidade que indica o seu território, e na época este requisito não tinha sido obedecido no processo. Então quando passou pela comunidade de Mata Cavalo, ela mostrou que seu território abrangia quinze mil hectares. Com isto, tornou-se necessário que o Incra realizasse outro trabalho identificação do território de quilombo Mata Cavalo. Isto foi necessário até para atualizar, pois o trabalho do Intermat já tem mais de dez anos.

 

Com a presença do Presidente lula em Mato Grosso, no lançamento do PAC voçês entregaram um documento, o que vocês reivindicaram?

Reivindicamos mais empenho do Incra de Mato Grosso no trabalho de identificação e reconhecimento do nosso território, pois o Incra de Mato Grosso e muito lento no processo de demarcação dos territórios Quilombolas. Sem contar que eles não são compromissados com os quilombolas. Mesmo tento uma coordenadoria de quilombola dentro de Incra, a gente vê que na verdade, o superintendente não empenha na regularização do território de Mata Cavalo. Por outro lado, a comunidade tem problemas com a educação das crianças, moradia, entre outros. A gente sabe que existem políticas públicas destinadas para a comunidade quilombola, só que pela falta de regularização fundiária estamos perdendo esses benefícios. Temos casas que foram queimadas por ser de palha, a causa não sabemos se foi curto circuito, ou fogo do campo. Mas se tivéssemos uma casa de material isso seria mais difícil de acontecer. Então famílias estão sendo desabrigadas e prejudicadas pela falta dessas das políticas compensatórias que não chegam até a comunidade do Mato Cavalo. A energia chegou aqui pela metade, então a comunidade não pode contínua sendo despejada e vivendo nestas condições desumana pela falta de empenho do Incra em Mato Grosso. Esse é um direito constitucional que temos de nossas famílias morar e viver com dignidade no território quilombola.

Com relação à educação escolar, qual o problema que vocês estão enfrentando?

A Prefeitura de Livramento entregou um projeto para o Ministério da Educação e eles não deixaram à prefeitura construir a escola no quilombo porque não tínhamos o título da terra registrado em cartório em nome da comunidade. E como MEC tem requisitos que não permite a construção de escola em área de conflito, acabamos não obtendo o direito a edificação de uma escola. Eles destinam as políticas para os quilombolas, mas não conhecem a realidade que vivemos. Assim, acaba ficando difícil para nos sermos beneficiado com as políticas públicas. Como a maioria das comunidades quilombolas não tem o documento, sofrem todo tipo de despejos. Com isto, temos o projeto, existe o dinheiro, mas não podemos obter o beneficio. Ou seja, não chega onde tem que chegar.

E Governo Blairo Maggi, como tem tratado a comunidade de Mata Cavalo?

No seu primeiro mandado ele não deu nenhuma atenção. No segundo estamos sentido que está iniciando. Lentamente está começando algumas ações. Inclusive já existem recursos assegurados nas dotações orçamentária das políticas dos planos de governo. Há até recursos para trabalhar a regularização fundiária em quilombo. Parece que o governo dá querendo trabalhar com essas comunidades.

Percebe-se que no Mata Cavalo uma grande parte das lideranças são mulheres, isso significa que os homens não estão envolvidos com a luta pela demarcação dos territórios quilombola? 

Pelo contrário. Até porque a violência com os homens é maior. E as mulheres viram que elas têm esse poder de negociar por ser mais frágil que os homens. E o pessoal ficar com medo de agredir as mulheres nos momentos do conflito. Com isto elas começaram a tomar conta da luta pela demarcação do nosso território. Agora isto não significa que os homens não estejam na luta pela terra. Com certeza eles estão também envolvidos neste processo. Estão na realidade na retaguarda e respeitam as decisões que tomamos.

Então o fato das mulheres estarem à frente da luta é uma estratégia feminina em Mata Cavalo?

Exatamente, é uma estratégia feminina. Por que a gente sabe que ao lado de uma grande mulher existe um grande homem.

Como você encara a luta da mulher negra pela posse da terra? 

Acho que isto vem das nossas raízes africanas. Quando você ler a história da África, percebe-se que sociedade era matrilinear, onde a mulher tinha o poder de resolver os problemas e tomar conta da situação. Então esses passos vêm de longe e é natural entre nos. Quando agente vê outras comunidades étnicas com problema de mulheres sendo agredidas por relações machistas, achamos estranha essa atitude, porque em nossa comunidade não vemos isso. Aqui realmente temos a igualdade de gênero.

Esta igualdade ela se dá e é garantida de que forma?

Como já disse. Acho que é da nossa cultura africana. Vimos os nossos antepassados agindo com uma relação diferente e vamos incorporando isso naturalmente. Aqui a maioria das ‘rezadeiras’ é mulher. Tem mulher que trabalha na roça, cuida dos filhos e da casa, é ainda é a chefe da família. E têm outras que o marido estar sempre junto em toda lida da comunidade. Vão inclusive para roça juntos. É esse o nosso convívio. Aceitamos sem nenhum problema essa relação. E todo mundo chega e aceita essa relação. E difícil você ver na comunidade problema de marido que bateu na esposa. Tem as separações, mas isso acontece porque estamos numa sociedade moderna que vive esse tipo de situação. Mas a questão da violência contra mulher não se vê na comunidade quilombola.

Qual a sua mensagem para as mulheres negra mato-grossense?

Gonçalina – Fé, esperança e coragem. Nós vamos vencer essa luta.

criado por joaoguato    6:01 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Comentário por Kleyde Pereira de Magalhães — 15 de novembro de 2009 @ 20:12

    Essa luta pela sobrevivência na terra não será a última do negro neste país.Nós mulheres nascemos com o estigma que somos fracas, porém, pela sua luta e determinação, vamos muito além doque o “homem branco” nos conhece. Parabéns e continue com fé, esperenaça e determinação.
    Kleyde

  2. Comentário por Kleyde Pereira de Magalhães — 15 de novembro de 2009 @ 20:16

    Resalva

    onde se lê : doque o “homem branco” e esperenaça passa a ler- do que e esperança

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