Prosa Pantaneira

A gente sabe que existem políticas públicas destinadas para a comunidade quilombola, só que pela falta de regularização fundiária estamos perdendo esses benefícios. Goncalina, liderança do Quilombo Mata Cavalo

28 de dezembro de 2008

PANTANEIRO DE TCHAPA E CRUZ

CERIMÔNIA DO ADEUS

“Meu último livro está aí lançado agora (Memórias Inventadas: A terceira Infância), e tenho recebido muitos telefonemas do Brasil inteiro sobre esse livro, que é um livrinho exíguo, sabe, mas é meu ultimo livro. È Alguma coisa que eu ainda precisava dizer.” Quem fala assim é Manoel de Barros, que faz 92 anos em 19 de dezembro, sem nenhuma pompa. O poeta do Pantanal é hoje o mais lido do Brasil: já vendeu um milhão de livros, o que o coloca como raridade no seleto clube dos best-sellers. Mas que ninguém se engane: ele não liga muito para isso. Nem para o fato de, finalmente, ter traduzido o inglês. E também para o alemão, catalão, espanhol e francês. E explica: “tenho paixão pelas coisas sem importância. As coisas muito importantes me aniquilam.” Quase surdo com os olhos lacrimosos de quem pouco vê recém recuperado da perda de um filho, morto há um ano num acidente aéreo, Manoel de Barros não evita qualquer ritual de despedida. Não precisa: quando escreve, paira acima das circunstancia do tempo. Acompanhe a entrevista concedida a Bosco Martins – em especial para o site à cidade, de Mato Grosso do Sul, e também encontra-se publicada na Revista Caros Amigos desta semana.

A POESIA

Ganho muito dinheiro com a poesia. Eu vendo muito bem, sabe. Primeiro eu recebo um adiantamento, e daí fico recebendo pela vendagem dos livros e dos outros que já estão publicados. Não é dinherão, não – mas dá pra viver. E recebo muitos prêmios também. Acaba que dá uma boa média.

LANÇAMENTO NOS EUA

Eu não lanço nada. Essa palavra lançar, lá em Cuiabá quer dizer vomitar. Então eu nunca vomitei aqui nem vou vomitar lá fora. Eu sempre tive editores, sabe. O primeiro o Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, que conheceu por acaso, eu acho que me conheceu por acaso, eu acho que foi pela coluna do Millôr Fernandes, que teria lido um livro meu. Ele me telefonou, e eu fiquei espantado, bugre fica espantado, e me disse que queria publicar um livro meu. Até 60 anos eu não tinha editor, mas já tinha publicado 8 livros.

ESSA RAPAZIADA

Estou só relendo. Essa rapaziada mais nova eu quase não leio, inclusive porque estou prejudicado. Leio vinte minutos e começo a lacrimejar. Então eu leio as pessoas que já conheço e que gosto muito. Gosto de ler o Padre Antonio Vieira, Guimarães Rosa, Machado de Assis, e o velho testamento: os profetas do velho testamento. Sou fanático pelo velho – pela literatura, como livros de arte. Não encaro aquilo como livro religioso – também me interessa, mas gosto principalmente dos profetas, me agrada muito a linguagem. Mas me angustia, sim, essa coisa de ler pouco. Porque eu acho que a literatura e qualquer arte servem para desabrochar a imaginação. E se você não tem boa leitura, não tem boa musica, não tem boa pintura, a sua imaginação, pelo menos a minha, eu acho que fica um pouco embotada, fica um pouco sem caminho e não desabrocha. Eu tenho escrito muito pouco, a minha imaginação criadora está muito prejudicada. Eu estou bem cadastrado, sabe. Mas não é culpa minha, velho é isso mesmo, tem limitações. A gente tem que aceitar sem chorar.

O DOM DA PALAVRA

Primeiro eu sou cristão, acredito n dom. A pessoa nasce como uma predisposição, que eu chamo de dom para arte. Eu acho que nasci com esse dom. Porque desde que me entendi por gente, com 13 anos, interno no Colégio dos Maristas. Que eu fui ler pela primeira vez o Padre Antonio Vieira, foi que descobri que era poesia, o que era uma aplicação literária pela palavra. Eu fiquei apaixonado pela palavra. Você sabe o que é se apaixonar pela palavra? É você sonhar com ela, e você tomar nota, e de manha você saber se ela dormiu… A partir disso, eu nunca mais quis me aplicar a outra coisa. Eu achei que isso era a minha única destinação. Eu acho que poesia é um parafuso a mais na cabeça. E nunca mais saiu da minha cabeça essa predestinação, essa tara, esse homicídio, essa obsessão pela palavra. Desde que comecei a ler o Vieira, eu também comecei a escrever. Escrevi para o meu pai e para minha mãe que já tinha descoberto a minha vocação, que não era para médico, dentista, ou engenheiro; era pra fazer frase. Eu chamo isso de dom.

criado por joaoguato    11:42 — Arquivado em: Sem categoria
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